COISAS QUE VIRAM outras

Pontos abordados e diálogos interdisciplinares 

para coordenadores, mediadores de leitura e professores

Coisas que viram outras, de Ninfa Parreiras (textos) e de Elê Nogueira (ilustrações), traz um conjunto de 12 contos que abordam diferentes etapas da vida, discutem temas paradoxais (vida/morte, ócio/trabalho, o antigo/o novo) e assuntos que podem ser associados (artesanato/arte, brincadeira/jogo, lembranças/memórias), a vida (no interior, no litoral, na capital e no mato), dentre outras questões a serem exploradas pelos leitores.

Os contos apresentam personagens que atravessam as diferentes fases do desenvolvimento humano: a infância, a adolescência, a maturidade e a velhice. Trazem o brinquedo, o sonho, o trabalho e a memória. Transitam no passado, no presente e no futuro. E ainda vão do tempo de antes à contemporaneidade.

Vocês poderão associar os contos a outras obras da literatura, a filmes, a vídeos, a expressões de arte e a brincadeiras. Pesquise com seus alunos e com seus pares! A literatura não encerra um sentido, ela é polissêmica e dialoga com outras manifestações de arte e linguagens.

Com a leitura dos contos, nos deparamos, por um lado, com um mundo de trocas e de laços, quando as pessoas conversavam e brincavam entretidas nos seus afazeres e se olhavam (Pedras sobrepostas). Por outro lado, percebemos, também, um mundo menos humanizado e repleto de futilidades (Mosaico de espelhos). Longe de dar respostas ou soluções, as histórias levantam questionamentos e provocam o pensamento sobre as relações humanas e a razão de existir. São narrativas para crianças com fôlego de leitura, para adolescentes e adultos de todas as idades.

Vocês repararam as ilustrações feitas por Elê Nogueira? Que tipo de linguagem é utilizada: figurativa ou abstrata? Que tal usarem algumas ilustrações para os alunos criarem poemas ou crônicas? As ilustrações também podem deflagrar uma dramatização (“A cidade em cena”, “O catireiro”, “A espera e o suor”) ou musicalização (“Tamancos de lata”, “De azulejos e guaraná”) de algumas narrativas.

No estudo dos gêneros literários, vocês podem transformar alguns contos em poemas (“O cajado na gaveta”); em crônicas (“O convite de ossinho”); em notícias de jornal (“Pelo alto-falante”); e até em uma entrevista (“O mar devolve”).

Preparamos, a seguir, algumas dicas para apoiar o seu trabalho, com alguns temas a serem explorados e algumas disciplinas que podem trabalhar a obra em sala de aula, na biblioteca ou em um projeto (artístico ou pedagógico). Pesquisem antes sobre a escritora e a ilustradora. Que outros trabalham desenvolveram?

Depois da leitura dos contos, um bate-papo com os alunos pode ser interessante. Aliar a leitura à experiência de vida dos leitores e conversar sobre isso é sempre uma experiência transformadora para todos.

Pedras Sobrepostas

I - Tudo Cerrado

Temas abordados: meio ambiente, infância, família, vida orgânica, Cerrado.

Disciplinas contempladas: Ciências, Geografia, História, Português.

Dicas após a leitura: que tal associar o bioma da sua região ao Cerrado? Quais as semelhanças e as diferenças? Se vocês moram em região de Cerrado: quais as particularidades? Vamos organizar uma pesquisa sobre biomas nacionais?

 

II - Tamancos de Lata

Temas abordados: infância, brincadeira, sustentabilidade, mundo adulto x mundo da criança/do adolescente, família.

Disciplinas contempladas: Ciências, Geografia, História, Português.

Dicas após a leitura: vamos criar brinquedos e jogos aproveitados (a partir de latas, tampas, caixas...)? Que tal resgatar brincadeiras que são, cada vez, mais raras? Se tiverem oportunidade de fotografar ou fazer um vídeo, o material poderá ser compartilhado entre turmas diferentes.

 

III - Laboratório de Papel

Temas abordados: meio ambiente, infância/adolescência, sustentabilidade, brincadeiras, família.

Disciplinas contempladas: Ciências, Geografia, História, Química.

Dicas após a leitura: quais os insetos e bichos de quintal que seus alunos conhecem no bairro onde moram? Vocês podem fazer pequenos textos sobre esses bichos e bolar um jornal ou livreto com as histórias. Vamos pensar em montar um laboratório, se não tiver na sua escola?

 

Em Cena

I- Pelo Alto-falante

Temas abordados: tradição, história e cultura barrocas, vida no interior, perda, humanização das relações.

Disciplinas contempladas: Português, História, Geografia, Matemática.

Dicas após a leitura: vamos pesquisar sobre a cidade de Tiradentes? Por que tem este nome? Que outras cidades históricas brasileiras vocês conhecem? Como são os avisos públicos da sua cidade: carro de som, alto-falante, jornal impresso, folhetos, outdoor?

 

II- A Cidade em Cena

Temas abordados: cena urbana, transformações de hábitos, magistério, trabalho, vida carioca.

Disciplinas contempladas: Geografia, História, Português, Ciências.

Dicas após a leitura: como são os deslocamentos da sua cidade (meios de transporte)? Quais os hábitos dos transeuntes? Há escola de magistério perto de vocês? Onde cada professor da sua escola estudou? Esta pesquisa poderá ser incrementada com uma culminância presencial de todos.

 

III - De Azulejos e Guaraná

Temas abordados: arquitetura/história e cultura, infância, família, descobertas, viagem.

Disciplinas contempladas: História, Geografia, Química, Português.

Dicas após a leitura: que tal pesquisar a influência portuguesa dos azulejos no Brasil? Qual a origem dos azulejos na história da humanidade? Há bebidas típicas da sua região: sucos ou refrigerantes? Vamos compartilhar sabores entre os alunos?

 

Nosso Tipo

I - O Cajado na Gaveta

Temas abordados: velhice, solidão, perda, vida/morte, rotina.

Disciplinas contempladas: Ciências, Matemática, Português, Geografia.

Dicas após a leitura: vamos entrevistar uma pessoa idosa da família de cada aluno? Vocês podem bolar o roteiro e sinalizar o que é importante: os sentimentos, os afazeres, as lembranças... Montem uma exposição com objetos afetivos dos entrevistados.

 

II- O Catireiro

Temas abordados: sustentabilidade, família, vida no interior, meio ambiente, memória.

Disciplinas contempladas: Matemática, História, Ciências, Português.

Dicas após a leitura: que tal promover uma feira de troca-troca entre os alunos? Uma troca de objetos usados, que envolvesse as famílias e os funcionários da escola. Pode ser troca de livros, de revistinhas, de games, de roupas, de brinquedos, de bijuterias...

 

III- A Espera e o Suor

Temas abordados: seca, sertão, família, refugiados, mudança.

Disciplinas contempladas: Geografia, Sociologia, Ciências, História.

Dicas após a leitura: vamos pesquisar a origem das famílias dos alunos? Quem tem avós e tios? Há familiares de outras cidades, de outros estados ou regiões? Será que há familiares de outros países? Isso pode se transformar numa tabela ou num gráfico na aula de informática.

 

Mosaico de Espelhos

I - O Mar devolve

Temas abordados: conflito de gerações/adolescência, solidão, velhice, família, rotina.

Disciplinas contempladas: Matemática, Geografia, História, Ciências.

Dicas após a leitura: vamos observar a orla ou a margem de rios da sua cidade? O que há de natural (plantas, pedras, conchas) e de artificial (garrafas, papéis, plásticos). Vamos fazer uma pesquisa de campo e expor alguns objetos catados pelos alunos?

 

II- Uma Funeral House

Temas abordados: vida/morte, vaidade, futilidade, anglicismo, família.

Disciplinas contempladas: Inglês, Ciências, Português, Sociologia.

Dicas após a leitura: como são os velórios da sua cidade? Comparem com o que é apresentado no conto. E como são enterrados os animais? Aproveite para conversarem sobre a morte, tema tão importante e difícil de ser conversado.

 

III - O Convite de Ossinho

Temas abordados: futilidade, cuidados com animais, exibicionismo, vaidade, amizade.

Disciplinas contempladas: Matemática, Português, Sociologia, Ciências.

Dicas após a leitura: vamos fazer um levantamento de quem tem cachorro na escola? Quais as raças e como são tratados? Há outros bichos de estimação no universo dos alunos? Que tal bolarem um álbum de fotos? Gravuras e pinturas são bem vindas!

 

Uma breve entrevista com a escritora Ninfa Parreiras:

1) Por que você escreve?

Escrevo porque me sinto viva, preciso das palavras para dar sentido a sentimentos desconhecidos. Escrevo para organizar o caos do meu mundo interno, transformar os sonhos, desabafar e experimentar a fantasia, tão necessária para entendermos a realidade.

 

2) Como surgem as ideias para a sua escrita?

As ideias podem vir de sensações (cheiros, sabores, texturas, sons...). E de memórias, de coisas que vivi, escutei e observei. Escrevo porque estou espantada com alguma coisa. E escrevo porque estou apaixonada ou revoltada. A escrita é o resultado da explosão de sentimentos dentro de mim.

 

3) Quando você descobriu que seria uma escritora?

Nunca pensei em ser escritora, gostava de escrever desde que aprendi as letras. Apreciava as aulas de redação e os desafios da escrita. Costumava escrever depois que voltava de uma viagem, de uma experiência arrebatadora. Escrevia e guardava, até que um dia, minha filha me provocou a mostrar os textos e abrir os arquivos e as gavetas dos escritos guardados.

 

4) O que você costuma ler?

A leitura de contos, romances e, em especial, de poesia me fascina. Ler é um modo de estar mais perto da imaginação. Profissionalmente, leio livros e textos de literatura para a infância e a juventude, para fazer resenhas, apreciações críticas e pareceres. E também ensaios sobre literatura e psicanálise, filosofia e antropologia. Gosto de leituras variadas, inclusive de livros de gastronomia.

 

5) Como é o seu processo de escrita?

Anoto um título, uma ideia ou uma palavra. Depois, isso ganha mais palavras, ainda soltas. Aos poucos, vou mexendo no texto, como um artesanato. Inicialmente, era uma semente, que vai crescendo. Cada dia faço um pouquinho mais. Aí, costumo digitar no computador e lapidar as palavras, uma pedra bruta que vou cortar ou substituir frases. Passo a limpo diversas vezes. Leio em voz alta para mim mesma: escuto a música do texto até sentir que há ritmo.

 

6) Quantos livros você já escreveu e publicou? Há algum preferido?

Já escrevi mais textos (centenas) do que os livros publicados (mais de 20). Muitos escritos ficam guardados e não serão publicados. São exercícios com as palavras. Não pretendo publicar tudo que escrevo. Há muitas maneiras de compartilhar o que escrevemos, além dos livros: nas redes sociais, em objetos poéticos, em cartas para amigos, etc.. Não tenho um livro preferido, com cada um, sinto uma particularidade, algo que me marcou.

 

7) Por que seu interesse pelo meio ambiente nos contos?

Precisamos incluir o debate sobre o meio ambiente em tudo que vivemos. Realizo coleta seletiva na minha casa e recolho objetos para artistas: plásticos, metais e papeis (tampas, garrafas, potes, caixas). Fui criada em cidade pequena, casa de quintal. Não havia lixo, as coisas eram reaproveitadas ou ganhavam destinos diferentes. Precisamos cuidar do nosso planeta, em casa, na escola, na vizinhança, no bairro!

 

8) Em alguns de seus contos, você descreve cidades diferentes (São Luís do Maranhão e Tiradentes, em Minas Gerais). Você gosta de viajar?

Sim, gosto muito de viajar e reparar as pessoas, os costumes, as falas e o colorido de cada cidade. O que há de genuíno nos recantos do nosso país ganha vida na folha de papel quando escrevo. Adoro ver ambientes diferentes e descobrir as idiossincrasias dos lugares.

 

9) O que você sugeriria a uma pessoa que gosta de escrever e não tem livros publicados?

Ler muito. Escrevemos porque lemos, num processo de mergulho na ficção, no universo do maravilhoso e “conversamos” com outros autores e obras, quando nosso texto está linkado a um tema já abordado, por exemplo. Passar a limpo seu texto, mostrar para outras pessoas, procurar concursos literários. Escrever o que te fizer bem. Conhecer as obras clássicas e as contemporâneas. Isso abre caminhos para uma escrita com pessoalidade.

 

10) Por que você aborda “coisas que viram outras”, nos contos?

Porque acredito nas mudanças materiais e subjetivas. Ou seja, você pode transformar a raiva em outro sentimento. Pode fazer um tamanco com a lata de goiabada. E você pode brincar, sempre. A escrita é das brincadeiras mais incríveis que há porque você pode transformar afetos em palavras.

 

11) Qual o segredo de um bom texto?

Um bom texto é aquele que cativa o leitor, a ponto dele sentir que está dentro da história, tudo parece verossímil e verdadeiro. Quando a história termina, o leitor queria mais. Aí, ele quer voltar um pouquinho, sublinhar um trecho ou indicar a leitura para alguém.

 

12) Como você atua em diferentes áreas (literatura e psicanálise)?

Trabalho como professora e psicanalista, profissões que lidam com as palavras e os afetos. E, claro, com as pessoas. Gosto disso: dos encontros, das leituras. São profissões muito ligadas à de escriba. Comecei a publicar livros em 2006. Sinto que cada vez mais, caminho entre olhares, escutas, palavras e sentimentos. As amizades nascem por causa dos livros. E os livros me levam a outros encontros e descobertas, no movimento que é a própria vida.

  • YouTube Social  Icon
  • Facebook Social Icon
  • Instagram Social Icon